Publicado por: Paty | setembro 22, 2008

O Tempo

O menino se olhou  no espelho

e do outro lado do espelho tinha um velho.

O menino sorriu, o velho também.

Ou o velho sorriu e o menino também?

O velho do espelho sentia saudade do menino encantado

E o menino se encantou com o velho saudoso do espelho.

Importa é que sorriam.

Ainda que o menino tenha visto um velho no espelho

Ou que o velho tenha se visto no espelho um menino.” (Fernanda Medida Pantola)

Freqüentava sempre o mesmo Shopping, não porque gostasse do ambiente nem porque na cidade não tivesse outros, mais por simples conveniência: era próximo do trabalho e oferecia uns tantos cursos de dança.

Terças e quintas para as aulas de dança, as sextas com o namorado, para jantar. Muita gente circulando e encontrando outras pessoas, fazendo compras, trabalhando, passeando com os amigos ou comendo. Aquele ritmo de todos os shoppings, que quem mora nas grandes cidades conhece tão bem.

Antes das aulas um lanchinho leve, um suco na praça de alimentação. Enquanto come observa o  movimento, as pessoas, as crianças felizes ou fazendo birra. Algumas vezes crianças pedem dinheiro, conseguem escapar da vigilância dos seguranças e entrar naquele mundo de desejos e promessas, oferecendo uma boa dose de realidade aos freqüentadores, para além daquele mundo de consumo e luxo.

Um dia seu olhar pousa em um homem, entre tantos outros que circulavam aquele chamou a sua atenção. Era velho, óculos, boné, umas luvas que lhe deixavam os dedos de fora. Um casaco azul surrado, uma calça de moletom, tênis… Uma bolsa de couro, dessas antigas, tipo uma “carteira com alças”, vocês com certeza já viram uma dessas. Ele comia vagarosamente, e tomava seu refrigerante.

Nessa primeira vez que o viu sentiu o coração apertado, ele pareceria tão sozinho… Aquela imagem ficou na sua mente, em seu coração. Levantou-se e foi para seus compromissos semanais.

Algumas semanas depois, ou talvez na semana seguinte (já não se lembra com exatidão) a mesma cena se repete. Enquanto toma seu suco novamente pousa o olhar no velho, de novo ele comia vagarosamente, as mãos com as luvas, a roupa surrada, o boné e a carteira com alças. Sozinho.

Dessa vez o coração se aperta mais, e pensa em seus pais (que também estão ficando velhos), em todos os velhos que passam essa parte da vida sozinhos, uma solidão tão profunda e escura quanto um abismo. Não entende muito bem porque esse senhor lhe desperta esses sentimentos.

Essas cenas se repetiram muitas vezes, às terças, quintas e sextas. Mesmo agora que não freqüenta com tanta assiduidade o local, exceto às sextas, pode pousar seu olhar sobre o velho. Pode observá-lo jantando vagarosamente, pizza as sextas, sozinho. Ele se levanta, costas curvadas pela idade, e lentamente coloca a bandeja utilizada no local correto, pega sua carteira com alças e vai embora, sabe-se para onde.

O namorado não acredita que o velho seja sozinho, acha que ele tem uma esposa em casa que não pode acompanhá-lo por problemas de saúde.

Seria bom que ele realmente não fosse tão solitário quanto parece. Seria bom que esse não fosse um tempo em que os amigos se foram, os amores, a beleza e os filhos. Seria bom se fossemos capazes de olhar e tratar a velhice de outro jeito.

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Responses

  1. Sabe… Gostaria que o namorado da moça estivesse certo… que o velho tenha alguém em casa, que não possa acompanhá-lo.
    Fiquei sensibilizado com ele, e fiquei pensando se um dia poderei estar neste mesmo lugar, comendo sozinho, vivendo sozinho, andando sozinho.
    Lindo texto!

    • Tks ! Todos seremos ….


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